- Você pode me deixar naquela esquina. – Hora de voltar para casa e pensar no que havia feito. Será que Mateus gostaria de suas atitudes? Não importa, ele não estava mais ali.
- Devo te ligar, bonequinha?
- Evite.
- Ótimo. Não se fala mais nisso. Você é bem diferente, hein.
Estava longe de casa, mas a noite estava bonita. Ir andando provavelmente seria agradável. No caminho, a distração tomava conta de seus pensamentos. Estava tudo bem. No dia seguinte tinha trabalho. Seu primeiro dia na creche. Sempre fôra boa com as crianças. Foi uma boa conseguir aquele emprego. Não dava mais para ficar na tia sem ajudar nas despesas. Não receberia grande coisa. Porém, pouco é mais do que nada.
Já podia avistar sua casa. Um apartamento pequeno em um bairro muito perigoso, 2 quartos, um banheiro, sala e cozinha. Matilde, sua tia, não tinha filhos, não era casada, enfim, era como Mirabel, não tinha ninguém. Não se podia dizer que agora tinham uma a outra, não seria verdade.
- Onde e com quem você estava até agora, Mirabel?
- Deixa de ser amarga, tia. Já sou bem grandinha.
- É, mas você mora na minha casa. Me deve satisfações.
- É? E o que isso vai mudar pra você?
- Eu tenho o direito de saber.
- Você não é minha responsável.
- Você me deve sua vida, menina. Você não tem ninguém. E se não fosse por mim, não teria onde morar e nem o que comer.
- E você tem alguém?
- Sua atrevida! Só não mando você ir embora imediatamente por consideração à sua mãe, que Deus a tenha. Onde você estava, Mirabel?
- Se torna sua vida mais interessante, eu estava no carro de um homem de 52 anos, dando pra ele! Se sente melhor ou ficou com inveja?
- Sua vagabunda, vem aqui que eu vou te ensinar a me respeitar.
Mirabel se trancou no quarto. Tirou o vestido. Nojo do próprio corpo. Não faz mal. Ninguém precisa saber. Tirou o sutiã, a calcinha e, nua, admirava a linda pele. A pele que Mateus tanto beijara. Agora, imunda de outros homens. Enquanto sua tia gritava do outro lado da porta, Mirabel enxugava as lágrimas.
- Por que você foi me deixar?
Adormeceu. Iria encontrar com ele.
Na janela, a luz da lua fazia companhia a Mateus, que a olhava dormir.
- Eu nunca vou te deixar. – E foi para os sonhos da garota.
No dia seguinte, o sol invadia o quarto e Mirabel se lembrou do seu primeiro dia de trabalho. Crianças. Roupas claras, então. Calmas.
Um vestido azul, um casaco bege, meias finas e sapato alto. Creche de crianças ricas. Sabia que iria encontrar crianças difíceis, mimadas, esnobes e desobedientes. Não todas. Algumas.
Saiu do quarto e lá estava ela, Matilde.
- Sua arrogância fará você perder esse emprego logo, logo. Tente mantê-lo. Preciso do dinheiro.
- O dinheiro não é para você. Vou cuidar dos meus gastos e ajudar no aluguel.
- Esse apartamento não é alugado. É meu. Portanto, pague a mim metade do valor que seria o aluguel.
- Mas e a consideração à minha ‘boa mãe, que Deus a tenha’?
- Você não encontrará outro lugar para ficar por tão pouco.
- É por isso que você nunca casou. – E bateu a porta. Não tinha dinheiro para tomar café na rua. Teria de ficar com fome. Ao chegar, foi bem recebida por suas colegas de trabalho. Alice, Joana, Marcela e Ana Paula. Havia outra, muito, muito bonita.
- Quem é ela?
- Megan, ela não se dá muito bem conosco. Trabalha aqui apenas meio-período. Faz faculdade de moda. Não é flor que se cheire. – Respondeu Alice.
- Mas ela se dá bem com as crianças?
- Elas vivem chorando quando Megan se aproxima.
- Eu vou lá falar com ela.



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